domingo, 9 de junho de 2013

Entre os Túmulos


 
Era noite, e um grupo de amigos adolescentes estava reunido em volta de uma fogueira perto do sítio do tio do Leandro. O frio dominava a cidadezinha do interior naquela noite sem luar. Contos de horror misturado com lendas locais se tornaram o ponto central da noite, até que Leandro resolveu desafiar um dos amigos. Márcio, que costumava se vangloriar por seus feitos, que na realidade seus amigos acreditavam não passar de estórias inventadas.

- Que tal uma aposta Márcio? – falou Leandro com um sorriso cínico nos lábios.

- Que aposta o quê? – perguntou Márcio meio zombeteiro.

- Eu duvido que você... tenha coragem de entrar no cemitério a meia-noite de hoje. – jogou Leandro ficando sério o bastante para atrair a atenção de todos para a seriedade daquele desafio.

Márcio o olhou ficando sério. Aparentemente travava uma batalha interna, entre aceitar o desafio ou sair como o amarelão da turma.

- O que eu ganharia caso aceite? – perguntou interessado.

- Toda minha coleção do Guns N’ Roses... – respondeu Leandro certo de que o amigo jamais toparia, o cemitério da cidade era estranho, um verdadeiro labirinto, muito esquisito. E a noite sem lua não iria ajudar em nada.

- Mas vai ter que provar que esteve lá dentro! – interrompeu Carlos na hora em que Márcio iria dar uma resposta.

- Isso mesmo cara, não basta entrar no cemitério, tem que ir lá dentro, onde estão os túmulos mais antigos... – disse Leandro abrindo um sorriso.

- Posso trazer alguma coisa de lá se o problema for provas. – falou Márcio mostrando que aceitava o desafio.

- Então temos que ir rápido, já são 23h15. – Carlos observou olhando seu relógio digital.


Faltando apenas cinco minutos para meia-noite, Márcio e Leandro chegaram aos portões do cemitério que era cercado por altos pinheiros. Os outros haviam ficado na casa do Carlos que ficava a poucos minutos do local.

- Não se esqueça de trazer algo. – pressionou Leandro.

- Vou trazer um defunto, - brincou Márcio, - vai combinar com a decoração do teu quarto.

Eles riram descontraídos, no entanto Márcio estava mais nervoso do que gostaria. Uma vez que se perdesse lá dentro, teria que esperar o sol nascer pra encontrar a saída, e se fosse pego por um dos vigias, teria problemas.

- To te esperando na casa do Carlos. – falou Leandro quando Márcio deu as costas e entrou pelo portão que estava apenas encostado.

Meia-noite em ponto. Márcio já havia se distanciado do portão quando ouviu passos que não eram os dele. Assustado ele pensou em voltar, não acreditava em espíritos, mas se fosse pego ali teria que se explicar aos seus pais. Porém mesmo de castigo, ele ainda seria o mais foda da galera e iriam acreditar no quanto era corajoso; afinal, que maior prova teria que esteve ali, do que ser apanhado por um dos vigias?

Ouviu novamente os passos até que com a caminhada o chão calçado se tornou de terra batida, e as lápides tomadas por eras. Estava na parte mais antiga do cemitério. Túmulos da primeira geração daquela cidadezinha.
Os passos cessaram e uma estranha voz o chamou, sussurros que fizeram todos os pelos do seu corpo se eriçar. Márcio olhou para os lados e não viu ninguém, a escuridão apavorante dominava tudo e tornava todos os caminhos iguais. Assustado , ele se apressou, com um pouco de dificuldade conseguiu arrancar uma das cruzes trabalhadas de um túmulo; aquilo bastaria para calar a boca daqueles idiotas que haviam metido ele naquela enrascada.

Em passos rápidos saiu do cemitério ouvindo os estranhos passos e alguns sussuros mais graves o acompanhando. Quase correndo ele chegou ao portão onde dois postes iluminavam tudo e olhou para trás. O silêncio era aterrador, e ele não sabia se o que mais o aterrorizava era os sussurros ou aquele silêncio macabro. Sair daquele lugar era a escolha certa a fazer. Márcio tentou abrir o portão, mas ele estava trancado com uma pesada corrente. “Que brincadeira de mal gosto!” Pensou ele, seus amigos iriam ter que se entender com ele quando os encontrasse! Aquela brincadeira tinha passado dos limites.

Márcio escalou a grade e conseguiu pular para o lado de fora. Foi para a casa do Carlos quase correndo e ao chegar lá os encontrou assistindo e terminando de comer uma panelada de pipoca.

- Viu um fantasma foi? – perguntou Leandro rindo e jogando uma almofada no amigo que tentava recuperar o fôlego.

Ainda sem conseguir falar, Márcio mostrou a cruz e abriu um sorriso para os amigos. A prova que ele não tinha medo dos mortos e era capaz de topar qualquer desafio!

- Vocês não deveriam ter me seguido... – falou Márcio desabando no sofá mais próximo, ainda tremendo. – Mas valeu a noite pela coleção do Guns...

- Como assim cara? Quem te seguiu? – perguntou Leandro achando que não passava de mais uma das estórias fantasiosas do amigo.

- Te esperamos o tempo todo aqui. – disse Carlos ficando sério.

Nesse momento alguém bateu na porta e todos se olharam.

- Quem será uma hora dessas? – perguntou Leandro e vendo que Carlos não saia do lugar, foi atender a porta.

Ninguém falou nada até que Leandro voltou, estava pálido como cera e uma expressão incrédula na face.

- Um tal de João Alves ta te procurando Márcio, ele disse que veio buscar algo dele que ta contigo.

- Eu não conheço nenhum João Alves. – foi as únicas palavras que Márcio conseguiu dizer e abaixando o olhar ele notou um detalhe que não enxergara na escuridão do cemitério: Na cruz roubada estava escrito

“João Alves
13/07/1893 – 29/05/1922”



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