Era noite, e um grupo de amigos adolescentes estava
reunido em volta de uma fogueira perto do sítio do tio do Leandro. O frio
dominava a cidadezinha do interior naquela noite sem luar. Contos de horror
misturado com lendas locais se tornaram o ponto central da noite, até que
Leandro resolveu desafiar um dos amigos. Márcio, que costumava se vangloriar
por seus feitos, que na realidade seus amigos acreditavam não passar de
estórias inventadas.
- Que tal uma aposta Márcio? – falou Leandro com um
sorriso cínico nos lábios.
- Que aposta o quê? – perguntou Márcio meio
zombeteiro.
- Eu duvido que você... tenha coragem de entrar no
cemitério a meia-noite de hoje. – jogou Leandro ficando sério o bastante para
atrair a atenção de todos para a seriedade daquele desafio.
Márcio o olhou ficando sério. Aparentemente travava
uma batalha interna, entre aceitar o desafio ou sair como o amarelão da turma.
- O que eu ganharia caso aceite? – perguntou
interessado.
- Toda minha coleção do Guns N’ Roses... –
respondeu Leandro certo de que o amigo jamais toparia, o cemitério da cidade
era estranho, um verdadeiro labirinto, muito esquisito. E a noite sem lua não
iria ajudar em nada.
- Mas vai ter que provar que esteve lá dentro! –
interrompeu Carlos na hora em que Márcio iria dar uma resposta.
- Isso mesmo cara, não basta entrar no cemitério,
tem que ir lá dentro, onde estão os túmulos mais antigos... – disse Leandro
abrindo um sorriso.
- Posso trazer alguma coisa de lá se o problema for
provas. – falou Márcio mostrando que aceitava o desafio.
- Então temos que ir rápido, já são 23h15. – Carlos
observou olhando seu relógio digital.
Faltando apenas cinco minutos para meia-noite,
Márcio e Leandro chegaram aos portões do cemitério que era cercado por altos
pinheiros. Os outros haviam ficado na casa do Carlos que ficava a poucos
minutos do local.
- Não se esqueça de trazer algo. – pressionou
Leandro.
- Vou trazer um defunto, - brincou Márcio, - vai
combinar com a decoração do teu quarto.
Eles riram descontraídos, no entanto Márcio estava
mais nervoso do que gostaria. Uma vez que se perdesse lá dentro, teria que
esperar o sol nascer pra encontrar a saída, e se fosse pego por um dos vigias,
teria problemas.
- To te esperando na casa do Carlos. – falou
Leandro quando Márcio deu as costas e entrou pelo portão que estava apenas
encostado.
Meia-noite em ponto. Márcio já havia se distanciado
do portão quando ouviu passos que não eram os dele. Assustado ele pensou em
voltar, não acreditava em espíritos, mas se fosse pego ali teria que se
explicar aos seus pais. Porém mesmo de castigo, ele ainda seria o mais foda da
galera e iriam acreditar no quanto era corajoso; afinal, que maior prova teria
que esteve ali, do que ser apanhado por um dos vigias?
Ouviu novamente os passos até que com a caminhada o
chão calçado se tornou de terra batida, e as lápides tomadas por eras. Estava
na parte mais antiga do cemitério. Túmulos da primeira geração daquela
cidadezinha.
Os passos cessaram e uma estranha voz o chamou,
sussurros que fizeram todos os pelos do seu corpo se eriçar. Márcio olhou para
os lados e não viu ninguém, a escuridão apavorante dominava tudo e tornava
todos os caminhos iguais. Assustado , ele se apressou, com um pouco de
dificuldade conseguiu arrancar uma das cruzes trabalhadas de um túmulo; aquilo
bastaria para calar a boca daqueles idiotas que haviam metido ele naquela
enrascada.
Em passos rápidos saiu do cemitério ouvindo os estranhos
passos e alguns sussuros mais graves o acompanhando. Quase correndo ele chegou
ao portão onde dois postes iluminavam tudo e olhou para trás. O silêncio era
aterrador, e ele não sabia se o que mais o aterrorizava era os sussurros ou
aquele silêncio macabro. Sair daquele lugar era a escolha certa a fazer. Márcio
tentou abrir o portão, mas ele estava trancado com uma pesada corrente. “Que
brincadeira de mal gosto!” Pensou ele, seus amigos iriam ter que se entender
com ele quando os encontrasse! Aquela brincadeira tinha passado dos limites.
Márcio escalou a grade e conseguiu pular para o
lado de fora. Foi para a casa do Carlos quase correndo e ao chegar lá os
encontrou assistindo e terminando de comer uma panelada de pipoca.
- Viu um fantasma foi? – perguntou Leandro rindo e
jogando uma almofada no amigo que tentava recuperar o fôlego.
Ainda sem conseguir falar, Márcio mostrou a cruz e
abriu um sorriso para os amigos. A prova que ele não tinha medo dos mortos e
era capaz de topar qualquer desafio!
- Vocês não deveriam ter me seguido... – falou
Márcio desabando no sofá mais próximo, ainda tremendo. – Mas valeu a noite pela
coleção do Guns...
- Como assim cara? Quem te seguiu? – perguntou
Leandro achando que não passava de mais uma das estórias fantasiosas do amigo.
- Te esperamos o tempo todo aqui. – disse Carlos
ficando sério.
Nesse momento alguém bateu na porta e todos se
olharam.
- Quem será uma hora dessas? – perguntou Leandro e
vendo que Carlos não saia do lugar, foi atender a porta.
Ninguém falou nada até que Leandro voltou, estava pálido
como cera e uma expressão incrédula na face.
- Um tal de João Alves ta te procurando Márcio, ele
disse que veio buscar algo dele que ta contigo.
- Eu não conheço nenhum João Alves. – foi as únicas
palavras que Márcio conseguiu dizer e abaixando o olhar ele notou um detalhe
que não enxergara na escuridão do cemitério: Na cruz roubada estava escrito
“João Alves
13/07/1893 – 29/05/1922”


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